إعداد خطيب ماهر
Em Nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso
Em Nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso
Todos os louvores são para Allah, nós O louvamos, a Ele pedimos ajuda, e d'Ele buscamos o Seu perdão, e nos buscamos refúgio em Allah contra os males do nosso instinto, e dos malefícios dos nossos atos, quem é guiado por Allah não lhe será desviado, e a quem Ele desviar, este não encontrará um ser que possa guiá-lo, assim eu testemunho que não há divindade merecedora além de Allah, o Único que nada pode Lhe ser associado, e testemunho que Muhammad é Seu servo e Mensageiro, que as bênçãos e a paz estejam sobre ele, sobre a sua família e os seus companheiros, e sobre aqueles que os seguem com excelência.
Quanto ao que segue: visto que as pessoas estão sempre em necessidade daquilo que corrige as suas condições, a Sharia trouxe o que garante isso, inclusive no que diz respeito ao sermão de sexta-feira. Por isso, a responsabilidade do pregador da Jumaah é uma grande responsabilidade. E, com esse propósito, empenhamo-nos em preparar um livro intitulado ‘O Resumo Útil para o Muezhim, o Imam, o Pregador e as Regras das Mesquitas’ [1], o qual foi traduzido para várias línguas. Ele abrange diversos temas, entre eles: - https://islamcontent.com/ar/single-content/74839.
A oração de Jumaah e o seu conceito, o seu tempo e algumas de suas regras relacionadas ao muqallaf (aquele a quem as obrigações são devidas). Do mesmo modo, o sermão de Jumaah, o seu estatuto jurídico, as suas condições, os seus pilares, as suas sunnas e a sua tradução. Incluiu também os requisitos que devem estar presentes no pregador, tanto requisitos científicos (de conhecimento) quanto morais, bem como as etiquetas da khutbah e do pregador, o propósito e os objetivos dela, e a forma de prepará-la.
E como o assunto é de suma importância, veio este segundo guia com o título (Preparação de um Khatib Hábil), como ampliação e complementação do livro anterior.
Pedimos a Allah que torne a nossa obra reta e sincera para o Sua Face, e que a abençoe. E Allah é o mais sábio. Que a paz e as bênçãos estejam sobre o nosso Profeta Muhammad.
(A Importância do Sermão)
O púlpito do Jumaah é um dos meios mais fortes — na verdade, o mais forte — de influenciar as pessoas, quando bem utilizado. Nele, o pregador se dirige ao povo uma vez por semana, ao longo de muitos anos, poucos ou muitos. Eles abrem para ele as suas mentes e os seus corações, não se distraindo dele, nem mesmo mexendo nos seixos, e recebem dele conselhos, exortações, lições e ensinamentos de forma repetida e contínua.
O pregador bem-sucedido e guiado, a quem Allah concedeu um estilo convincente e uma expressão eloquente, certamente exercerá grande influência sobre as pessoas, sem dúvida. Talvez até mais forte do que a influência de um professor sobre os seus alunos, e mais impactante do que a das redes sociais; pois o sermão está ligado a uma grande adoração, que é a oração. Além disso, o pregador eloquente e sincero dirige-se diretamente às pessoas, estando de pé diante delas: veem as expressões do seu rosto, o olhar dos seus olhos, e assim ele os influencia tanto pelo ouvido quanto pela visão, tocando os seus corações e mentes. Permanecem atentos a ele durante todo o tempo do sermão, e ele lhes apresenta provas e evidências racionais e textuais, com as quais — pela permissão de Allah — consegue convencê-los e corrigir os seus entendimentos.
O pregador bem-sucedido e abençoado é aquele que fez do púlpito uma das principais portas de difusão do bem e do conhecimento, sem se limitar a ele. Pelo contrário, participa e contribui em todos os campos do bem e da virtude, dentro de suas possibilidades. Onde quer que haja o bem, encontrarás nele um de seus pioneiros; e onde quer que haja sacrifício por Allah, encontrarás nele um de seus soldados.
Esse é o pregador: aquele que se dedica ao chamado a Allah e ao benefício dos muçulmanos — tal como faziam os Profetas e Mensageiros, que a paz e a bênção estejam sobre eles, e também os sábios e pregadores sinceros da Ummah islâmica —, zelando pela renovação, pela atração e pelo despertar do interesse de seus ouvintes.
Há muitos pregadores que possuem os requisitos de um orador, mas cujo sermão não produz o fruto desejado; ao contrário do que se espera de um pregador que carrega a mensagem com sinceridade e dedicação.
E em cada Jumuah ele lhes traz um tema que toca seus sentimentos e necessidades, cativando seus corações. E encontra-se com eles cinquenta vezes ao longo de um único ano. Haverá, então, meio mais poderoso em impacto do que este?
Não é, pois, de estranhar que o sermão do Jumaah seja um dos rituais mais nobres do Islam, um dos mais importantes campos do chamado a Allah, da transmissão da Sua Sharia e do estabelecimento da prova contra os Seus servos. É algo que os inimigos do Islam desejariam ter em sua própria religião. A tal ponto que um dos líderes de partidos que combatem o Islám chegou a dizer: "Ah, se eu tivesse tais púlpitos?!"
“As ciências e as artes se enobrecem na medida em que se enobrecem os seus objetivos. E a oratória possui um objetivo de grande importância: orientar as pessoas para as verdades e despertar nelas o desejo pelo que lhes beneficia nesta vida e na outra vida, a do Além.
E a oratória é considerada entre os meios de liderança e chefia.
Na oratória há uma grande nobreza, e a sua nobreza consiste em que o responsável por ela seja perspicaz, erudito e eloquente. ([2]) - “A oratória entre os árabes”, de Muhammad Al-Khidr Hussain: 178- 179.
E o Legislador (Allah) obrigou o orante a escutar-te, ó irmão pregador, durante o teu sermão. O Mensageiro de Allah ﷺ disse: “Se disseres ao teu companheiro: cala-te, enquanto o Imám estiver a proferir o Sermão da oração de sexta-feira, então sem dúvida cometeste um ato maligno.” Bukhari e Muslim ([3]) E o significado de “cometeste um ato maligno”: Isto é: Não terá recompensa da oração de Sexta Feira. Narrado por Al-Bukhari (934) e Muslim (851)
Pelo contrário, é recomendável que as pessoas dirijam seus rostos para você, e An-Nawawi, Ibn al-Munzhir e Ibn Abd al-Barr - Que Allah tenha misericórdia deles - relataram o consenso sobre a recomendabilidade disso ([4]). - "Al-Majmu'": 4/ 447.
(Os anjos do Misericordiosíssimo escutam-te; reconhece-lhes o devido valor.)
Basta-te, como honra e orgulho — ó pregador da sexta-feira —, que os anjos do Misericordiosíssimo compareçam junto a ti para escutar os teus sermões e as tuas exortações. Disse o Mensageiro de Allah — que Allah o abençoe e lhe conceda paz —, como consta nos dois Sahihs ([5]): “Quando é sexta-feira, os anjos estão em todas as portas da mesquita escrevendo os primeiros a chegar; e, quando o imam se senta, eles dobram os pergaminhos e vêm ouvir o sermão.” Narrado por Al-Bukhari (3211) e Muslim (850)
E quando sentires isso: engrandecerá o estatuto do sermão em teu coração, e aumentarás o teu zelo por dizer a verdade, cumprir a confiança, aconselhar as pessoas e não os vigiar nem transigir com eles.
Então, quem é como tu, ó orador abençoado?
Allah tornou obrigatório às pessoas ouvir-te e permanecerem em silêncio em teu discurso, a ponto de proibi-las de se ocuparem, mesmo que fosse com o revirar das pedrinhas, e de reprovar o mal durante o teu discurso; e fez com que Seus anjos te escutassem!
E isso te impõe que sejas sincero para com Allah, que aconselhes com a máxima sinceridade em teus sermões e exortações, e que o objetivo de teus sermões seja a lembrança de Allah, a exortação das pessoas e esclarecê-las acerca dos assuntos de sua religião e do que lhes traz benefício em sua vida neste mundo.
***
(Que é melhor: improvisar (discursar de forma espontânea) o sermão ou lê-lo a partir de um papel?)
Não há dúvida de que a leitura do pregador a partir de um papel traz muitos benefícios, e pode ser mais adequada para muitos pregadores e oradores do que o improviso; e isto é algo observado e constatado.
A improvisação tem grande efeito no envolvimento e no entusiasmo do pregador, e isso — sem dúvida — leva à comoção, ao entusiasmo e à emoção dos ouvintes; e vice-versa.
É sabido que, quando os sentidos da audição e da visão se unem na recepção, isso é mais forte para a assimilação, o impacto e a fixação da informação, ao contrário de quando um deles atua isoladamente. Assim, o pregador que fala de improviso, apresenta-se ao povo de frente e dirige-se a eles com o olhar, é mais impactante do que aquele que profere o sermão lendo de um papel, e do qual as pessoas só recebem por meio da audição; e mesmo essa recepção não tem a mesma força que no caso do pregador que improvisa, pois a sua voz é mais vigorosa e mais envolvente.
E quem tiver experimentado o improviso várias vezes e perceber que, ao improvisar, há muita hesitação, gagueira, esquecimento, ou medo e grande nervosismo, e não notar que essas dificuldades diminuem com o passar do tempo e com a prática frequente do improviso, então que leia os sermões. Pois nem todos são bem-sucedidos no improviso. Assim como Allah, Exaltado seja, distribuiu entre as pessoas os bens materiais, também distribuiu entre elas os bens imateriais, como os caracteres, as capacidades, os talentos e as aspirações.
(Oito passos que facilitam e aplanam o caminho rumo ao desempenho bem-sucedido na oratória)
Primeiro: A súplica sincera por auxílio nisso, e voltar-se a Allah com sinceridade e humilde súplica.
Segundo: a sinceridade na Confiança em Allah Todo-Poderoso nisso, e a boa dependência n’Ele; e Allah é conforme a expectativa do seu servo a respeito d’Ele; e quem confiar n’Ele, Ele lhe será Suficiente e o bastará no que o preocupa e no que busca.
Terceiro: Escutar os pregadores distintos e beneficiar-se das suas experiências.
Quarto: proferir o sermão sozinho, ainda que seja na mesquita através do alto-falante interno, é melhor; mas se for a partir do púlpito, isso é muito melhor.
Quinto: o exercício de manifestar os sentimentos e de fortalecer a afetividade.
Refleti sobre os maiores segredos dos bem-sucedidos na oratória, na elocução e na capacidade de influenciar: e descobri que o segredo e a razão disso — após o auxílio de Allah — residem na força da emoção que possuem e na capacidade de manifestar os seus sentimentos em detalhe, e não de modo genérico, em conformidade com os parâmetros da lei islâmica.
Pois a força da emoção impele o dotado de eloquência a explicá-la, e impele o dotado de sabedoria a manifestá-la; ela atrai os corações com o seu encanto e cativa as mentes com a sua beleza e mestria. Já quem tem emoção débil, muito do seu saber morre com a morte da sua emoção, e a sua influência sobre as pessoas se esvai com a morte dos seus sentimentos.
“É obrigatório ao pregador encher-se de entusiasmo pelo que conclama e de convicção em sua veracidade; pois aquilo que sai do coração entra no coração. Assim, o entusiasmo do pregador deve ser mais forte do que o entusiasmo dos ouvintes, para que transborde sobre eles e sacie a sua sede. Caso contrário, perceberão o desânimo de sua alma, e o efeito de suas palavras se perderá.”
E é indispensável a prática constante: escrevendo pensamentos e sentimentos, falando-os para si mesmo, e depois expressando-os diante de alguém de confiança que aprecie ouvi-los.
E os sentimentos, sempre que são reprimidos e aprisionados, secam e se esgotam; e, sempre que são livres — com a condição de que estejam conforme os parâmetros da Sharia — jorram e fluem; então dessedentam as páginas com escrita e composição, os púlpitos com sermão e esclarecimento, e as pessoas com amor e ternura.
Então, liberta — ó meu irmão pregador — os teus sentimentos e emoções, para que reviva em ti e nos outros o espírito de vida, de criatividade, de renovação, de crescimento e de misericórdia.
Quem possui sentimentos nobres: suas qualidades morais se tornam nobres, sua alma se eleva em dignidade, aumentam os que o amam, diminuem os seus inimigos, torna-se evidente a sua prova, fortalece-se a sua eloquência e engrandece-se a sua clareza de expressão.
Sexto: Pedir conselho a alguém veraz, sensato, experiente e amoroso, que lhe indique os seus defeitos para que os evite, e as suas virtudes para que nelas se firme e nelas aumente.
Sétima: A preparação antecipada para o sermão.
Oitava: Ler livros relacionados à preparação do sermão e à forma de proferi-lo ([6]). - Consulte: Guia Útil para o Muazhin, o imam e o Khatib e Regras relacionadas com as Mesquitas: 95, https://islamcontent.com/ar/single-content/74839.
(A ansiedade e o nervosismo no início de proferir sermões são algo comum e habitual)
No início da tua experiência ao proferir sermões, encontrarás ansiedade e medo — e isso é algo da natureza de todos os seres humanos. Talvez te venha a sensação de que isso se deve ao olhar das pessoas sobre ti, ou à tua própria impressão de fraqueza no conhecimento.
E pode aumentar a tua dúvida: o sentimento de que as pessoas percebem isso e o detestam no pregador, e talvez isso seja motivo para que se afastem de ti.
E não há dúvida de que, com o teu constante apego a Allah, tua confiança n’Ele, tua súplica sincera e com a prática contínua, o medo desaparecerá por completo, até que alcances o estágio de desfrutar do sermão e de ansiar pela sexta-feira para saborear o prazer da oratória.
Não é senão a paciência, até que se abram ao homem os tesouros do bom êxito divino e as graças do Generosíssimo, o Doador, glorificado seja Ele.
Suportar o aperto do esforço no início, para alcançar a amplitude da bem-aventurança, do prestígio e da felicidade no final.
E diz a ti mesmo: depois da dificuldade vem o alívio, e após o constrangimento vem a tranquilidade; depois do cansaço vem o descanso. É apenas a paciência de uma hora. Portanto, sê paciente e persevera, para que subas aos púlpitos e proclames o chamado a Allah. E Allah falou a verdade — e quem é mais verdadeiro do que Allah em palavra? {E aqueles que se esforçam por Nós, guiá-los-emos, com certeza, para as Nossas veredas.} [Al-Ankabut: 69]
E quão belo é o que disse Qatadah, que Allah tenha misericórdia dele: Ó filho de Adão, se não quiseres praticar o bem senão quando estiveres animado, então a tua alma tenderá ao tédio, à fraqueza e ao cansaço. Mas o crente é aquele que se esforça, o crente é aquele que busca forças, e o crente é aquele que é firme. E o que se entende por firme é: aquele que é firme na preservação das boas obras, obrigando a si mesmo a perseverar nelas. - Tafsir Al-Qurtuby: (1/251). E o athar de Qatadah - Que Allah tenha misericórdia dele -, foi registrado por: Abu Al-Qasim bin Bishran Al-Baghdadi (falecido em 430H), em: "Al-Amali": (1454).
(Meios para livrar-se do medo excessivo de discursar em público)
O medo — sobretudo no início — é algo comum e muito natural, como já mencionado. Na verdade, ele é positivo, pois ajuda a ter cuidado com o sermão e a prepará-lo, e contém os impulsos da alma de exagerar na autoconfiança, o que levaria a menosprezar as pessoas e a não se preocupar com a qualidade do conteúdo científico, nem com a escolha das palavras e significados adequados.
Mas a persistência do medo em cada sermão e por um período prolongado é algo negativo - o que, na época moderna, se chama fobia social -: deve-se adotar meios para livrar-se dele, entre eles:
Primeiramente: a sinceridade para com Allah, o voltar-se a Ele e a abundância de súplicas, pedindo que Ele te conceda tranquilidade e faça descer serenidade sobre o teu coração.
Segundo: beber algumas infusões calmantes antes do sermão, como o chá de hortelã e semelhantes, pois isso tem efeito em acalmar a ansiedade e o medo.
Terceiro: habituar a alma a ouvir críticas e alegrar-se com elas, para que sejam um meio de progresso e criatividade, e não temer o erro.
Quarto: Ir cedo; não há dúvida de que o khatib que chega às pressas para recuperar o tempo terá a alma agitada, o coração perturbado, e será acometido por ansiedade e tensão que perdurarão com ele até durante a khutba.
Quinto: levanta a tua cabeça para olhar as pessoas e fala, às vezes, de forma espontânea, ainda que no início sintas dificuldade, cometas erros e tenhas hesitação. Pois, se continuares preso apenas ao que está escrito no papel e não olhares para o público com coragem, isso fará com que os ouvintes percam o entusiasmo pelas tuas palavras e te manterá no medo e na apreensão diante do púlpito.
Alguns pregadores que têm anos na pregação, mas não saem do que está no papel nem olham para o público, declararam que sentem medo e ansiedade em cada sermão; e até diz um deles: “Em cada sermão, é como se eu estivesse pregando pela primeira vez, por causa da preocupação e do temor!”
Porém, não olhes para os rostos das pessoas no início de teus sermões; talvez teu olhar caia sobre alguém a quem temes e fiques confuso, e o olhar das pessoas dirigido a ti pode intimidar-te. Mas, em vez disso, olha para as cabeças delas, sem fixar-te em suas pessoas nem em seus olhos.
Sexto: Não pense, ao subir no púlpito, nas possíveis negatividades ou erros; pelo contrário, pense nos resultados positivos esperados, com a permissão de Allah, e nos grandes benefícios que colherá do seu sermão: beneficiar as pessoas, alcançar o êxito que Allah lhe concede ao estabelecer a prática de ordenar o bem e proibir o mal, e convidar para Ele.
Sétimo: pratica a respiração correta antes do sermão. Consiste em inspirar profundamente pelo nariz, reter o ar por alguns instantes e depois soltá-lo lentamente. Essa respiração tem um grande efeito na eliminação da tensão. Especialistas e médicos mencionaram que a respiração comum bombeia de sete a dez litros de oxigênio para o cérebro, enquanto a respiração correta fornece cerca de setenta e cinco litros de oxigênio, o que reduz os níveis dos hormônios da ansiedade e do estresse. Tal prática foi experimentada e comprovou ter um efeito notável na remoção da tensão, da preocupação e da ansiedade.
E, durante o sermão, procura tomar um fôlego profundo de modo a não chamar a atenção dos presentes; isto, tomando-o rapidamente e em grande quantidade pela boca ou pelo nariz, quando fizeres uma pausa apropriada; em seguida, após esse fôlego, prossegue para completar o discurso; e assim procede em quase toda pausa.
(A melhor solução para as críticas equivocadas que te chegam)
Se estiveres convencido — ó meu irmão, pregador — de uma decisão que tomaste, de um método que escolheste ou de um caminho que seguiste, depois de refletir e consultar pessoas de experiência, então não dês ouvidos aos críticos e censuradores. Pois ninguém, por mais que faça e por mais elevado que seja o seu valor, estará livre das críticas das pessoas.
Certamente, se deres ouvidos às críticas deles: enfraquecerá a tua determinação, apertar-se-á o teu peito, e perderás o interesse pelo desenvolvimento e pela criatividade.
Não há livro, nem artigo, nem ação que não seja alvo de censura e crítica.
Cumpre-te tratar os críticos com gentileza e respeito, responder-lhes da melhor maneira, aceitar o que eles trazem de verdade e não desprezar isso, ainda que, a teus olhos, o crítico não tenha importância.
(Conselhos ao pregador antes do sermão)
Convém-te - meu irmão orador - realizar várias coisas antes do sermão, com as quais, após confiar em Allah, o Altíssimo, buscarás auxílio para subir ao púlpito e proferir o teu sermão, dentre elas:
Em primeiro lugar: recorda que vais para transmitir as Mensagens de Allah e convidar para Ele, e recita — por vezes — a Palavra do Altíssimo: {Os que transmitiram as Mensagens de Allah e O recearam, e não recearam a ninguém senão a Allah,} E leia – em outras ocasiões – o dito do Altíssimo: {E quem melhor, em dito, que aquele que convoca os homens a Allah e faz o bem e diz: 'Por certo, sou dos submissos?'} [Fussilat:33]
E o dito do Altíssimo: {Dize: "Este é o meu caminho: convoco-vos a Allah. Estou fundado sobre clarividência, eu e quem me segue. E Glorificado seja Allah! E não sou dos idólatras".} [Yussuf: 108]
E isso te impulsiona a ter mais sinceridade, empenho e a seguir o exemplo do Profeta ﷺ, recordando o objetivo supremo da oratória, pelo qual Allah, Exaltado seja, enviou os Seus Profetas e Mensageiros: transmitir e difundir a religião. E esse é o cargo mais elevado neste mundo.
Segundo: Suplica a Allah, pouco antes de subir ao púlpito, que te conceda sinceridade, êxito e acerto, e que te beneficie e beneficie a outros com o que disseres. Quantos pregadores e oradores não tomam lição do que dizem; e, ainda que a tomem, logo se esquecem do que disseram, sobretudo com o passar do tempo.
E pede sempre a Allah, Altíssimo, que te abençoe com a eloquência e a clareza.
Terceiro: Preparar um conjunto de sermões, geralmente com bastante antecedência antes de os proferir; pode haver meses ou anos entre a sua preparação e a sua apresentação.
Quando te ocorre um tema, ou durante a leitura encontras um benefício valioso, ou um hadith que te chama a atenção, ou um versículo que contemplaste: anota isso imediatamente, sem demora. Pois, nesse momento, os sentimentos estão vivos e as ideias presentes e conectadas. Se adiares a escrita, as ideias e reflexões se perderão e será difícil recordá-las e recuperá-las. Depois, escreve aquilo que o pensamento te oferecer. Em seguida, começa a reunir, sem afetação, o material de estudo a partir do Alcorão e da Sunnah e das palavras das pessoas de conhecimento, cujos ditos conheceste durante a tua leitura de seus livros ou das obras que os citaram; e pesquisa na al-Maktaba ash-Shamila, ou na rede (internet), quando necessário.
E dedica especial atenção aos versículos do Alcorão e aos hadices proféticos, aos ditos dos salaf e aos seus relatos, à história, e às palavras dos eruditos piedosos contemporâneos, especialmente no que diz respeito às questões contemporâneas e aos acontecimentos.
Tudo o que você encontrar relacionado ao assunto da Al-Khutbah: pegue-o e coloque-o em um arquivo no computador, sem ordenação e sem revisão.
Proceda assim sempre no que lhe ocorrer ou lhe passar pela mente, entre temas e benefícios; anote então o que o pensamento lhe oferecer, pesquise e escreva o que você puder; depois deixe-o e prossiga na sua leitura habitual. Então, se encontrar um benefício, um sinal ou um hadith relacionado a um dos sermões que você escreveu, ou a trechos de alguns, acrescente-o ao respectivo sermão.
Talvez o sermão permaneça com você por vários anos, e o apresentes em suas aulas, palestras ou alocuções; e, durante elas, desvelar-se-ão para si sutilezas e benefícios que antes não lhe haviam ocorrido, e se lembrarás de coisas que havia esquecido, e ele estará pronto e completo — na medida do possível — quando o proferir no sermão de sexta-feira.
Quarto: Apresenta-a na íntegra ou por partes, por meio de alocuções nas mesquitas ou nas tuas reuniões privadas, e o objetivo disso é:
a. Consolidar as informações e memorizá-las.
b. Difundi-la entre as pessoas, especialmente nas mesquitas que não ficam próximas da mesquita central onde fazes o sermão, já que, em geral, a tua congregação não costuma estar presente contigo.
c. Aprofundar ainda mais a investigação sobre o tema, pois é comum que, ao proferir o sermão ou depois dele, ocorram-te pontos importantes que merecem ser abordados, ou surja uma pergunta e dúvida de alguém que o tenha escutado de ti.
Quinto: apresenta-a na sexta-feira, cerca de duas horas antes do horário da khutba, da mesma forma como a proferirias no sermão.
Sexto: Não se sobrecarregue com a pesquisa e preparação excessivas; faça de sua preocupação reunir material que o beneficie primeiro, e depois beneficie os ouvintes em seus diversos níveis.
Tenho visto que a afetação em tudo é prejudicial e penosa, e geralmente conduz quem a pratica ao abandono, ou ao tédio e à lassidão.
(Recomendações ao orador durante o sermão)
Há várias coisas que deves fazer durante o sermão, entre elas:
Primeiro: não forces a criação artificial de emoções, nem as ocultes quando vivenciares os acontecimentos das histórias, situações e lições. Conforme o contexto, manifesta os teus sentimentos através das expressões do rosto, do olhar e da variação no tom da voz.
E sabe que, quanto mais natural for a tua exposição, sem afetação, tanto mais efeito terá; portanto, sê conforme a tua índole com que cresceste e mantém o teu estilo habitual quando conversas e falas fora do sermão, cuidando das inflexões da voz e aperfeiçoando o desempenho.
Muitos dos oradores dão ao sermão um estilo completamente distinto daquele a que estão acostumados, como se considerassem que a oratória tem um estilo monótono e um padrão único e exclusivo; e isso os priva de influenciar os ouvintes e de alcançar os seus corações.
Segundo: Não narre o sermão de forma corrida, nem se apresse a ponto de privar o ouvinte da escuta plena; pregue com tranquilidade, faça pausas breves quando houver necessidade; atente ao nível das entonações da voz conforme o momento adequado; eleve a voz e acelere na fala se a ocasião o exigir.
Terceiro: Calcular o tempo do sermão com precisão, e não prolongá-lo, exceto quando houver necessidade.
Quarto: Quando vires algumas infrações cometidas pelos orantes durante o sermão, chame a atenção para elas com gentileza; por exemplo, se vir alguém falando durante o sermão, faça um alerta geral sobre esse erro.
(Conselhos ao khatib após a khutba)
Há várias coisas que se deve fazer depois do sermão, dentre elas:
Primeiro: Louvar a Allah pela graça de te conceder o êxito em proferir o sermão.
Segundo: Escutar os teus sermões depois de os proferir, com o objetivo de buscar os aspectos positivos para reforçá-los e consolidá-los, e os aspectos negativos para evitá-los e afastar-se deles.
E tudo isso:
Primeiro: Em reverência à dignidade do sermão, pois tem o seu valor e a sua posição no Islam.
Segundo: Por respeito aos que vieram observar a oração, que vieram em obediência ao Seu Senhor, atendendo ao chamado de Seu Criador e por amor de ouvir o que tens a dizer.
E pode igualmente encaminhá-la a um conselheiro sincero, para orientá-lo quanto ao que há nela de aspectos positivos e negativos.
Do mesmo modo, se for possível gravá-la e publicá-la, sobretudo nos países em que há poucos pregadores, que se publique para que o público em geral que não reza contigo possa se beneficiar dela, e que seja publicada em áudio e por escrito.
E, se criasse para ele uma página nas redes sociais, bem como um Site electronico próprio, seria bom.
Assim como a cooperação com os sites que publicam sermões e a publicação do seu sermão nesses sites, especialmente os sermões traduzidos, dada a sua escassez.
(Conselhos gerais para o pregador e para aquele que convida para Allah.)
Eis, caro irmão, pregador da sexta-feira, estes conselhos, que nada mais são do que um lembrete para todos nós:
[1](Dá boas-novas, e não intimides os outros)
O pregador bem guiado e bem-sucedido: é aquele que anuncia boas novas e não afugenta; difunde entre as pessoas o espírito do otimismo e da esperança; remove a poeira da desesperança e da indolência; e exorta à diligência e ao trabalho.
Evita, ó irmão orador, que os temas de teus sermões girem em torno das tragédias e calamidades, e dos aspectos negativos que podem ocorrer em todo tempo e lugar; ao contrário, faz com que a maior parte de teus sermões trate do otimismo e da menção de modelos luminosos nas condutas e comportamentos e nas pessoas, para que as pessoas adotem essas condutas e comportamentos e tomem essas pessoas como modelo e farol para si.
Se você vir um erro, não há problema em alertar sobre ele e advertir as pessoas contra ele, conforme os preceitos islâmicos e de maneira adequada.
[2] (Mantém diante dos teus olhos as pessoas em geral)
Coloca — que Allah te guarde — diante dos teus olhos as pessoas em geral, pois elas são as mais dignas e prioritárias para os teus sermões e conselhos. Isso se baseia na palavra do Profeta ﷺ a Uthman filho de Abi al-As (que Allah esteja satisfeito com ele), quando este foi designado como imam do seu povo: “E siga o exemplo do mais fraco dentre eles”([8]). Narrado por Abu Daud: (531), e Ibn Majah: (987), e Ahmad: (17906), e outros, e classificado como autêntico por Al-Albani.
Ou seja: considera a condição dos mais fracos e faz a oração de modo que não lhes seja penosa. E ter consideração pelos de entendimento mais limitado não é menos importante do que considerar os de corpo mais frágil.
Quanto a se considerares apenas a elite deles, os mais próximos, os teus admiradores e alunos, sem te preocupares com o povo em geral: isso te levará a vários perigos:
O primeiro: a afetação na escolha das palavras, a composição afetada de prosa rimada, e a seleção de temas que se ajustam ao seu nível, e não ao da grande maioria dos leigos e afins.
Segundo: A privação do público em geral daquilo que os beneficia, das exortações e do tratamento das questões sociais; pois ocupaste-te com o que importa aos intelectuais e a outros, que desejam ouvir falar das minúcias das ciências e das deduções, do novo e do estranho, e alguns preferem ouvir sobre política e a imersão excessiva no real; e nada disso lhes aproveitará nem na sua religião nem na sua vida mundana.
Terceiro: corrupção da intenção; em vez de ser exclusiva para Allah, tornou-se voltada para atender aos que te amam, considerando o que lhes agrada e os satisfaz.
Quando perceberes a admiração das pessoas por seus sermões, e se apressarem a comparecer e a ouvi-los, não há dúvida de que você os levará em consideração e proferirá sermões que lhes agradem.
E, então, Allah retira de ti a benção e a aceitação, e o benefício e a utilidade.
A preocupação do orador com o benefício do público em geral não significa deixar de tratar de questões importantes que podem estar acima do nível de muitos, das quais alguns especialistas, como os estudantes de conhecimento ou as autoridades e seus semelhantes, se beneficiem; mas de acordo com a necessidade.
“[3] (Cuidado para não te deixares encantar por ti mesmo ou pelo elogio das pessoas a teu respeito)
Quando o pregador da sexta-feira sobe ao púlpito e vê que multidões de pessoas compareceram à sua presença, dirigiram-se a ele e acorreram até ele, e vê entre elas o sábio, o médico, o ancião, o juiz, o rico e o responsável, pode então acometê-lo o maravilhar-se consigo mesmo, sobretudo quando sabe que muitos deles vieram por causa dele. Por isso, impõe-se ao pregador prudente buscar refúgio em Allah contra o deslumbramento consigo e a vaidade, e lutar contra si mesmo, toda sexta-feira, para se livrar do deslumbramento consigo e da autoexaltação, e atribuir o mérito a Deus, que fez as pessoas acorrerem a ele.
Alguns predecessores piedosos disseram: "Quando te sentares diante das pessoas, sê um admoestador para o teu coração e a tua alma, e não te iluda o ajuntamento delas à tua volta; pois elas observam o teu exterior, e Allah observa o teu interior" ([9]). “Madārij al-Sālikīn bayna Manāzil Iyyāka Naʿbudu wa Iyyāka Nastaʿīn” (2/66).
Portanto, sê sincero para com Allah, o Todo-Poderoso, e fortalece a tua fé. E deves ter cuidado com o encantar-se pelo elogio das pessoas, pois muitos, quando elogiam, exageram — e tu és quem melhor conhece a ti mesmo!
Ibn al-Jawzi - Que Allah seja misericordioso com ele - disse: «E a maior provação são os louvores do povo comum; quantos não têm iludido!» ([10]). - "Sayd Al-Khatir": 67.
E não é censurável alegrar-se com o elogio das pessoas a seu respeito ou ao seu sermão; pois foi dito ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos de Allah estejam com ele): "O que achas de um homem que pratica uma boa ação e as pessoas o elogiam por isto?" Ele disse: "Essa é a imediata aprovação do bom trabalho de um muçulmano." ([11]). - Narrado por Muslim: (2642).
Então, quando o crente age “Se a obra for dedicada sinceramente a Allah, e então Allah lançar para ela o bom elogio nos corações dos crentes, e ele (o servo) se alegrar com o favor e a misericórdia de Allah e se sentir satisfeito com isso, isso não lhe causará nenhum mal.” - O Abrangente da Ciência e Sabedoria por Ibn Rajab: 1/ 84.
O defeito e o pecado estão apenas quando o elogio das pessoas te enche de vaidade, e te alegras com o teu próprio esforço e a tua ação, atribuindo o mérito a ti mesmo, e não à graça, misericórdia e generosidade de Allah — que foi Quem te conduziu ao bem, o tornou amado para ti e o facilitou para ti.
Sinal de teres sido acometido pela doença da vaidade: aversão à crítica, bem como repulsa ao conselho de quem aconselha.
[4](Fale do que vai beneficiá-los em seus assuntos religiosos e mundanos)
Faz ouvir àqueles que vieram escutar-te aquilo que lhes será útil em sua religião e em sua vida mundana. E pergunta a ti mesmo, durante a preparação: o que irei oferecer às pessoas de benefício para a sua religião e para a sua conduta quando saírem da mesquita?
E, quanto àquilo de que não se beneficiaram, não o cites.
Então, que proveito terão se eu falasse, por exemplo, das minúcias da política, ou se eu falasse excessivamente sobre as calamidades dos muçulmanos?
E que benefício obterão de eu apresentar um tema envolto em ambiguidade, devido à sua sensibilidade e ao meu receio de o declarar abertamente contra mim próprio, de modo que recorro a alusões e circunlóquios que só a elite da elite compreende?
Que proveito terão quando eu aconselhar o governante diante das pessoas, explicitamente ou implicitamente, sendo que aconselhar o governante em público foi proibido pelos piedosos predecessores; pois isso geralmente suscita discórdias e acarreta dano ao pregador.
[5](Zelo pelo silêncio durante o sermão)
É necessário que sejas calmo durante o sermão, e que o entusiasmo não te leve a sair do tema ou a dizer palavras das quais venhas a te arrepender depois. Pois, quando o orador se deixa levar demasiado pelo entusiasmo, geralmente perde a concentração e o controle de suas palavras, e talvez eleve a voz a um ponto que chegue a incomodar muitos ouvintes.
“[6] Cuidado com o prolongamento excessivo no sermão.”
O Profeta ﷺ costumava encurtar o sermão, e assim faziam também os seus companheiros (que Allah esteja satisfeito com eles) e aqueles que vieram depois deles, dos piedosos predecessores desta Ummah (que Allah, Exaltado seja, tenha misericórdia deles).
Abu Wail (que Allah tenha misericórdia dele) disse: Ammār (que Allah esteja satisfeito com ele) nos fez um sermão, no qual foi conciso e eloquente. Quando desceu (do púlpito), dissemos: ‘Ó Abu al-Yaqẓan, de fato foste eloquente e conciso; se ao menos tivesses falado um pouco mais!’ Ele respondeu: ‘Eu ouvi o Mensageiro de Allah ﷺ dizer: "Certamente, o prolongar de um homem a oração de Sexta Feira e encurtar seu sermão é sinal de seu conhecimento; então prolonguem a oração e encurtem o sermão; e, por certo, há magia na eloquência." ([13]). - Narrado por Muslim (869).
“A sua expressão: ‘tanaffasta’ significa: prolongaste o sermão.”
Seu dito: "ma'inat": isto é, sinal, (De seu conhecimento): isto é, daquilo por meio do qual se reconhece o conhecimento do homem, e tudo o que indica algo é sinal disso.
Na brevidade do sermão há três benefícios preciosos:
Primeiro: Seguir a sunnah.
Segundo: A facilidade de preparar o sermão, e o alcance do conforto interior ao prepará-lo, durante o seu proferimento, e após o seu término.
Muitos dos palestrantes sentiam preocupação com o sermão desde o Fajr de sexta-feira, ou mesmo antes, e se ocupavam mentalmente na sua preparação. Quando, porém, encurtaram o sermão, sem ultrapassar dez minutos, toda a preocupação — ou a maior parte dela — desapareceu.
Terceiro: aliviar os ouvintes. Pois quase todas as pessoas concordam em sentir conforto com aquele que encurta o seu sermão, e em sentir aversão por aquele que o prolonga.
O tempo adequado para o orador e para os ouvintes situa-se entre dez minutos e um quarto de hora, aproximadamente; pois as pessoas quase concordam que a concisão do sermão lhes é mais querida e mais leve do que o seu prolongamento.
[7] (Evite palavras estranhas)
Evita o falar rebuscado: pois as pessoas não necessitarão de tal fala da tua parte, e não lhes trará proveito algum; e pode haver na alma caprichos ao proferi-la e ao falar dela em excesso.
E os literatos e os eloquentes reputados advertiram contra o falar estranho.
[8](Abstenham-se da afetação na prosa rimada (saj‘))
O sajʿ é a ‘correspondência das terminações das frases em prosa segundo o mesmo ritmo’. A Lei Sábia (Shariah) proibiu o uso forçado do sajʿ, e os literatos e mestres da eloquência também o desaprovaram; pois o sajʿ raramente está livre de palavras artificiais que acabam por bloquear a mente dos ouvintes de uma plena compreensão dos significados. Assim, se for tolerado o sajʿ, será apenas aquele que ocorre espontaneamente, sem afetação — ou seja, o sajʿ que vem até o orador, e não aquele que o orador procura deliberadamente.” [14] - "Os Fundamentos da Composição e da Oratória", de Ibn-Ashur: (p.: 126).
Portanto, afasta-te de forçar o sajʿ (a rima em prosa); pois, quando é forçado, causa-te o esforço de fabricá-lo e impõe aos ouvintes a dificuldade de compreendê-lo. Mas se ele te vier de forma fácil ao pensamento, leve em suas palavras na tua língua e claro para o ouvinte, então não há problema nisso.
[9] (A preocupação com a boa aparência)
O cuidado do pregador com a sua aparência exterior não é menos importante do que o cuidado com o seu interior. Pois a correção ou a corrupção do exterior nada mais é do que o reflexo da correção ou da corrupção do interior. E a boa apresentação do pregador manifesta-se no seguinte:
Primeiro: A beleza da vestimenta e a sua limpeza, sem exagero nem extravagância.
Segundo: A beleza do corpo por sua limpeza e bom aroma, e raspar ou aparar o bigode, e deixar crescer a barba.
Terceiro: a beleza do rosto do pregador está na sua afabilidade e no seu sorriso ao cumprimentar as pessoas fora da mesquita, ao entrar para o sermão e ao concluir. Pois o sorriso sincero, a face alegre e a boa receptividade fazem com que as pessoas amem o pregador, seus sermões e seus conselhos. Isso é um ato de adoração para quem o faz com sinceridade a Allah. Tal conduta conquista as mentes e os corações, e a pessoa afável tem suas ações louvadas e suas falhas relevadas. Diferente é o carrancudo e sisudo, do qual se busca refúgio; a sua presença gera opressão e aperto no coração daqueles que o encontram.”
Portanto, sê tu — ó meu irmão pregador — de semblante afável, e verás a expansão do peito, a aproximação das pessoas a ti, a boa lembrança que guardarão de ti, a aceitação de tuas orientações e conselhos, bem como a busca de desculpas para os teus erros e deslizes.
Quarto: a sua humildade e o seu bom comportamento ao caminhar, ao subir ao púlpito, ao sentar-se nele e ao receber bem as pessoas durante a congregação e o sermão.
Nota-se que alguns pregadores, ao se sentarem antes do sermão, o fazem de modo que aparenta desatenção para com as pessoas, ocupando-se em observar os rostos dos presentes. E, quando iniciam o sermão, lançam olhares que transmitem indiferença e descaso, como se quisessem demonstrar coragem e ousadia. Além disso, dirigem-se ao público com um tom de voz áspero e elevado, impondo ordens e proibições de forma direta. Tal estilo não é bem recebido pelas pessoas; ao contrário, causa aversão e afastamento.
Quinto: Que não passe a mão na barba nem a toque sem necessidade; e que não exagere em se virar para os lados, especialmente enquanto estiver sentado no púlpito; pois isso diminui a imponência do imam, ou dá a entender que não se importa com quem está à sua frente.
Sexto: o uso do siwāk (a escova de dente natural) com delicadeza e boas maneiras. Pois alguns pregadores — que Allah os guie — entram na mesquita fazendo uso do siwāk de forma chamativa, e alguns até continuam a usá-lo até pouco antes de iniciar a khutbah. Isso faz com que restem pedaços do siwāk em suas bocas, que acabam saindo enquanto discursam. Tal atitude é reprovável e pode dar a impressão de desleixo para com as pessoas e para com a grandeza do ato da khutbah.
Sétimo: observar a Sunnah no vestuário, evitando o isbal (deixar a roupa ultrapassar os tornozelos), e na barba, deixando-a crescer. Pois o pregador é um exemplo a ser seguido. Como podem as pessoas tomar como modelo alguém cujas ações contradizem suas palavras? E como podem ser influenciadas por alguém cujo próprio discurso não teve efeito sobre si mesmo?
Oitavo: O sossego do corpo ao falar; pois é indício do sossego da alma.
[10](A diferença no tempo dedicado à preparação do sermão)
Tempo de preparação do sermão: varia conforme a cultura e o conhecimento do orador, e de acordo com o conteúdo que ele irá apresentar; em geral, o conteúdo se divide em dois tipos:
Primeiro: Que seja de cunho científico, como as questões de jurisprudência ou de crença e sua fundamentação; estas devem receber um tempo condizente com a sua importância, não se devendo menosprezá-las, nem prepará-las apenas poucas horas antes do sermão.
Segundo: que seja exortativa ou social e afins; assim, o tempo de preparação costuma ser curto na maioria das vezes.
O meu conselho ao iniciante na oratória — dentre os que não possuem a experiência e os conhecimentos suficientes — é: que, no início, se beneficie dos sermões de quem o precedeu, e que aquele de quem ele se beneficia possua sermões que se caracterizem por três qualidades:
Primeira: que seja breve, para que não lhe seja difícil entregá-lo.
Segunda: Que esteja correta gramatical e cientificamente.
Terceira: Que esteja isenta de afetação, na forma e no conteúdo.
E não há problema, com o passar dos dias, em que ele ajuste ou acrescente o que considerar adequado. Em seguida, deve procurar escrever o sermão por si mesmo, beneficiando-se da experiência daqueles que o precederam.
[11](Abster-se de dar comandos diretos ao público)
Evite — que Allah te proteja e te guie — as expressões que contenham ordens dirigidas apenas aos ouvintes e não ao orador, como: ‘façam’ ou ‘não façam’. Em vez disso, utiliza formas como: ‘vamos fazer’, ‘vamos deixar de lado’, e semelhantes. Esse estilo transmite aos ouvintes a tua humildade, o teu amor pelo bem para eles assim como o amas para ti mesmo, e mostra que não te colocas acima deles — nem em religião nem em caráter.
E o pregador bem-sucedido é aquele que dirige suas palavras a si mesmo antes de dirigi-las aos outros, que exorta a sua própria alma antes de exortar os demais. Assim, suas palavras no sermão são endereçadas primeiramente a ele mesmo, antes de serem dirigidas às pessoas. Quando faz isso, Allah o eleva, concede-lhe benefício no que diz e aumenta-lhe em guia, aceitação e sinceridade.
[12](Quando é louvável e quando é reprovável a imitação na oratória?)
Não imites um pregador específico no seu estilo ou no seu conteúdo, pois pode ser que algo lhe convenha mas não se adeque a ti. A imitação corrompe a tua criatividade e os teus talentos. Portanto, faz a khutbah de acordo com as capacidades, talentos e conhecimento que o teu Senhor te concedeu.
Quanto ao iniciante: não há problema em beneficiar-se do estilo e do conteúdo de outrem; porém, não deve ser uma cópia dele. Ao contrário, deve fazer disso um auxílio para o seu próprio aprimoramento.
[13](Não te entristeças pela pouca presença junto a ti, nem te alegres pela grande quantidade deles.)
Sabe — que Allah te beneficie — que a alma naturalmente deseja a presença de muitos ouvintes e frequentadores, sobretudo de teus parentes e amigos. Talvez até perguntes sobre a presença deles, ou repreendas — ainda que apenas em teu coração — a ausência de algum deles. Mas esforça-te em combater esse mal, pois a ausência de alguém em tua khutbah não significa que sejas fraco, mas pode ser porque ele encontra conforto e benefício com outro pregador, ou por estar mais próximo de sua casa, ou ainda por outras razões.
E o pregador sincero se alegra ao ouvir que as pessoas assistem a outros além dele; invoca Allah pedindo retidão e benefício para aquele, e o elogia quando sabe de algo bom a seu respeito.
E quando vires pouca presença junto a ti e o afastamento das pessoas de ti, então faz um exame de consciência. Pois pode ser que a falha esteja em ti: seja pela fraqueza do teu estilo, pela fragilidade do conteúdo que apresentas, pela excessiva extensão da khutbah, pela falta de sinceridade, ou por outras razões.
E pede conselho a irmãos sinceros e bem-intencionados; solicita-lhes que estejam presentes contigo ou que ouçam a tua khutbah, e pede-lhes, com sinceridade, que te deem suas observações e opiniões. Assim alcançarás resultados benéficos, com a permissão de Allah, o Altíssimo.
[14](A importância da boa preparação)
Se és daqueles que improvisam a khutbah, então deves preparar-te bem para ela, e nunca deves ser negligente nisso, mesmo que o tema te pareça simples e fácil, ou que já o tenhas abordado anteriormente.
E a boa preparação está entre as coisas mais prazerosas para os pregadores; de fato, eles chegam a ansiar pela sexta-feira para expor aquilo que prepararam e pelo qual se empenharam.
Quanto à insistência em não preparar o sermão e contentar-se apenas com os sermões de outros, isso traz consigo muitas consequências negativas, dentre elas:”
Primeiro: isso causa fraqueza de determinação, abatimento da vontade e humilhação da alma, pois ela se contenta em apenas imitar os outros.
Segundo: isso te faz perder o entusiasmo, a vitalidade e o prazer, de modo que a khutbah passa a parecer um fardo do qual queres apenas te livrar. Isso acaba afetando o teu estilo e a aceitação das pessoas para contigo.
Terceiro: muitas pessoas percebem que o pregador não preparou a khutbah por si mesmo, mas sim a reproduziu de outro, devido à diferença entre o estilo e o conteúdo do sermão em relação ao seu próprio estilo e nível. Assim, a khutbah não é bem recebida por eles.
Quarto: não tirarás verdadeiro proveito dela, e se houver algum benefício, será mínimo. Pois o trabalho no qual o seu autor não se esforça em pesquisa e preparação rapidamente é esquecido e desaparece.
E não progredirás, nem aumentarás a tua ambição e a tua determinação, nem as pessoas se beneficiarão do teu conhecimento — a menos que Allah, o Altíssimo, assim o queira.
Por isso, observa a khutbah que preparaste de forma adequada: verás que não a esqueceste, e, ainda que a consultes depois de anos, saberás o que contém, como se a tivesses pronunciado recentemente.
Quanto aos sermões que tomaste de outros, rapidamente os esquecerás. Experimenta: volta aos sermões de quatro ou cinco anos atrás, e verás que os esqueceste, ou que mal consegues recordar uma pequena parte do que havia neles.
E tampouco tirarás proveito deles ao reunir o seu material para formar um livro que possa ser útil.
Empenhe-se na preparação do sermão como se fosse publicá-lo em um livro; apresente as fontes dos hadiths e indique o grau de sua autenticidade, apoiando-se nas palavras de alguns eruditos do hadith; e documente as obras e fontes às quais recorreu, zelando pelos aspectos sintáticos, ortográficos e linguísticos.
[15](O cuidado com os sinais de pontuação)
Atenta — se fores ler a khutbah — para os sinais de pausa e de pontuação, como as vírgulas e semelhantes. E estabelece para ti sinais específicos nos quais farás pausa, de modo a respeitar a tua respiração, para que não fiques em apuro por parar demasiadas vezes em locais inadequados.
[16](A importância da diversificação dos temas e dos métodos)
Diversifica na abordagem dos temas e não te limites a um único padrão, como se todos os teus sermões fossem apenas sobre os estados do coração, ou somente sobre assuntos gerais da Ummah, ou coisas semelhantes. Considera sempre as necessidades das pessoas, tanto em sua religião como em sua vida mundana.
Antes, diversificai bastante; para despertar nas almas das pessoas o anseio pelos vossos sermões.
E se fizeres dela uma série interligada, não há problema em interrompê-la quando houver necessidade.
E saiba que as histórias retiradas do Livro (o Alcorão), da Sunnah autêntica e das palavras dos nobres Companheiros — que Allah esteja satisfeito com eles — têm o maior impacto sobre os ouvintes. Nelas estão as maiores lições e ensinamentos, as exortações mais valiosas e as pérolas de sabedoria. Portanto, sê zeloso em utilizá-las e apresentá-las de forma envolvente, extraindo delas os benefícios e lições.
Não deixes teu sermão desprovido de menções a situações, histórias, exemplos reais e afins; para que teus sermões não se tornem enfadonhos e pesados.
Empenha-te, com o máximo zelo, pelo estilo mais adequado na apresentação dos relatos e das situações, e envolve-te com elas de coração, e que isso se manifeste no teu semblante e nas modulações da tua voz.
Zela por viver a realidade das pessoas e partilhar de suas preocupações, para que não estejas num caminho e elas noutro.
[17](A importância de adquirir habilidades e técnicas de oratória e de influência)
É o pregador quem mais deve adquirir as habilidades e as artes da oratória; pois ele precisa convencer as pessoas e captar a sua atenção, para que aceitem o que ele lhes diz.
O pregador de estilo vigoroso e de elocução primorosa beneficia as pessoas - na maioria das vezes - mais do que aquele que não se distingue por isso, ainda que seja mais erudito e de posição mais elevada.
O orador deve ouvir lições sobre a arte da oratória; e, se a elas comparecer, é melhor; ou ler os livros a esse respeito.
E quem for sincero com Allah, dedicando-Lhe a sua alma e o seu tempo, Allah lhe concederá, de Sua bondade e generosidade, aquilo que jamais esteve em seus cálculos nem passou pela sua mente. E quem der a Allah o que Ele ama, Allah lhe dará mais do que aquilo que ele ama. E quem colocar-se a serviço de Allah, Allah colocará as Suas criaturas a serviço dele, e lhe facilitará as causas da felicidade, da elevação e da firmeza.
Assim, nada te separa dos dons do Senhor Majestoso senão a sinceridade da determinação, a firmeza da vontade por causa de Allah, o abandono do que amas e desejas em favor daquilo que Allah ama e Se agrada, e o empenho diligente pela elevação da Sua religião e da Sua Sharia — ainda que isso resulte na diminuição do teu prestígio diante das pessoas do mundo, dos desejos e dos cargos.
[18](O princípio da renovação)
Com efeito, Allah, o Altíssimo, criou o ser humano com amor pela renovação e pela mudança em direção ao melhor. Assim, vês que as pessoas não permanecem num mesmo estado; e sempre que surge algo novo na vida, apressam-se em adquiri-lo quando têm condições para isso.
Assim, o homem de hoje não é o mesmo de dez anos atrás; ao contrário, nota-se hoje que ele renovou e mudou, para melhor, os aspectos de sua vida, seu modo de viver, seu meio de transporte e sua casa.
E o pregador da Sexta-feira está entre as pessoas que mais necessitam renovar e aprimorar o seu estilo, bem como desenvolver as suas habilidades de oratória e de influência. Pois, se ele permanecer num mesmo padrão que adotou desde que assumiu o encargo da pregação, sem dúvida não mudará para melhor; ao contrário, irá regredir. Isso porque é da natureza humana que, com o avanço da idade e o envelhecimento, a determinação e a energia enfraqueçam, o espírito se torne menos vivo e a sua influência diminua. Assim, ele precisa de algo que lhe revigore, fortaleça a sua determinação e o seu ânimo, e desenvolva suas habilidades e métodos, a fim de superar os estados de fraqueza que acometem a si, aos seus sentidos e à sua disposição.
E a maioria dos pregadores não mudou de forma evidente desde que começou a proferir sermões; acaso isso significa que já havia alcançado a perfeição desde o início?
Não.
Então, por que permanecer no mesmo método ao qual se habituou, sem revisar o seu estilo e a sua forma de expor, nem adotar as medidas corretas de aprimoramento, renovação e criatividade — enquanto se esforça intensamente em melhorar os seus assuntos de vida material e mundana?
E como não se empenharia nisso, quando a dignidade do sermão está entre as mais nobres e grandiosas incumbências que ele cumpre em sua vida?
[19](O cuidado com duas ferramentas de influência: a voz e o olhar)
O pregador bem-sucedido está em extrema necessidade de usar essas duas ferramentas:
1- A voz, que é o instrumento de influência mais forte; seu efeito se completa com a observância do que segue:
a) Que o nível da voz seja moderado em seu elevar e abaixar, assim como em sua velocidade e lentidão: não tão baixo ou lento a ponto de causar tédio e desânimo nos ouvintes, nem tão alto ou rápido a ponto de incomodá-los ou impedi-los de se concentrarem e compreenderem.
b) Que não seja em um tom monótono. Pois alguns pregadores mantêm a mesma entonação durante toda a khutbah: se for fraca, causa tédio; e se for forte e elevada, incomoda os ouvintes.
E falar em um tom monótono faz com que os ouvintes percam a interação com as palavras do pregador, pois não conseguirão distinguir entre as passagens importantes e as demais. E não há dúvida de que as palavras importantes e impactantes precisam de uma elevação perceptível da voz com certa aceleração, ou de uma redução acompanhada de lentidão.
c) Ajustar a entonação da voz de acordo com a natureza da frase: se for uma pergunta, pronunciá-la com o tom de quem interroga; se for uma exclamação, expressá-la com o tom de quem se admira; e assim sucessivamente.
d) Abra a boca mais do que o fazes em tua fala comum, pois isso ajuda na clareza da articulação das letras, evita que elas se sobreponham e dá melhor controle da voz. Porém, sem exagero, pois abrir demais a boca leva a um entusiasmo excessivo e a uma aparência pouco apropriada para o pregador.
e) Faz a khutbah com a tua voz habitual, e não adotes para ela um tom e uma performance artificiais. Pois isso pode criar um distanciamento entre ti e as pessoas e resultar na perda da mais poderosa ferramenta de influência sobre os ouvintes.
E que faça uma breve pausa nos momentos em que o silêncio seja apropriado. Assim, quando o pregador passar por uma ideia importante que deseje fixar na mente dos ouvintes, deve voltar-se para eles e fitá-los diretamente nos olhos por um instante, sem dizer palavra alguma.
E este silêncio repentino tem um grande efeito sobre eles, pois atrai a sua atenção e faz com que cada um fique atento e motivado para o que virá após esse silêncio.
Porém, é necessário que a pausa não seja demasiado longa e nem forçada.
Um exemplo disso: Ali filho de Abi Talib (que Allah esteja satisfeito com ele) enviou ao Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos estejam com ele) uma peça de ouro, então o Profeta (que a paz esteja com ele) a dividiu entre alguns dos seus companheiros.
Então aproximou-se um homem e disse: "Ó Mensageiro de Allah, tema a Allah!" (...)
Que audácia para com o verdadeiro, o honesto - Que a paz e bençãos de Allah estejam sobre ele -!!
E por isso o Mensageiro de Allah – que a paz e as bênçãos estejam sobre ele – disse, admirado com tal ousadia: (...) Quem obedecerá a Allah se eu Lhe desobedecer? Allah me confiou os assuntos dos habitantes da terra, e vós não confiais em mim?
O que está entre parênteses indica uma pausa breve; pois o contexto discursivo assim o exige, para despertar o interesse e a atenção dos ouvintes e suscitar neles expectativa quanto ao que será dito em seguida.
E a primeira frase: (Que audácia contra o Veraz, o Confiável, que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele!!), foi em estilo de admiração; portanto, o contexto exige que a formule em forma exclamativa.
E a segunda frase: (Quem obedecerá a Allah se eu desobedecer? Acaso Allah me confiou os habitantes da terra, e ainda assim não me confiais?), era um interrogativo no sentido de reprovação e negação; assim, o contexto exigia que a formulasse na forma de um interrogativo reprovador.
2- O olhar: por meio de distribuir o olhar entre todos os ouvintes, e de fazer com que os olhos interajam com o que se fala; e isso se dá por:
a) Virar ligeiramente para direita e esquerda, sem exagero no virar, nem em rapidez nem em frequência; isso não é recomendável, em especial da parte do imam, pois indica o predomínio das suas emoções e o seu domínio sobre ele, e leva à falta de precisão na concentração.
b) Ao abrir os olhos ou ao estreitá-los levemente, os movimentos dos olhos têm o mais profundo efeito sobre os presentes, que deles depreendem sentidos que a língua talvez não exprima.
A voz e o olhar: são dois pilares essenciais da influência do pregador sobre os ouvintes; sem eles, perde a capacidade de lhes transmitir o que deseja, de convencê-los e de captar a sua atenção, o seu entusiasmo e o seu vigor.
É possível a todo pregador fazer uso de ambos sem constrangimento nem afetação, mas sem exagero; pois o exagero nisso revela leviandade e imprudência, assim como o exagero na solenidade e na quietude leva ao tédio e ao enfado; e o melhor é a moderação.
E há alguns instrumentos que não convêm ao pregador do sermão de sexta-feira, entre eles:
1- Movimentar as mãos.
2- Agitar o bisht ou o turbante, brincar com os alto-falantes, o avançar e o recuar e o que se assemelha a isso.
[20](Não te prendas a uma fórmula específica que não foi estabelecida pela Sunnah autêntica)
Não é adequado comprometer-se com uma fórmula específica, a não ser aquela que está estabelecida pela Sunnah autêntica, para que não se pense que se trata de uma Sunnah. Como, por exemplo, dizer: ‘Que Allah abençoe a mim e a vós no Nobre Alcorão...’ no final da primeira khutbah.
E é muito comum que alguns pregadores se atenham a uma súplica no final do sermão, da qual quase nunca se afastam. Alguns deles chegam a prolongar excessivamente essa súplica repetitiva, a ponto de muitas pessoas, quando o pregador começa a fazer a súplica, sentirem-se incomodadas e entediadas; pois se cansaram da sua repetição frequente em um estilo dominado pela simples narração, sem a interação desejada na súplica.
[21](Cuidar da articulação correta das letras e evitar que se confundam umas com as outras)
Esforça-te por pronunciar as letras com pleno domínio dos seus pontos de articulação, pois isso tem um efeito profundo na eloquência, na clareza e na força da fala.
Entre os erros pelos quais o pregador é repreendido: pronunciar as palavras apressadamente, de modo que junta uma letra ou palavra à seguinte antes que a primeira tenha se estabelecido devidamente em seu lugar. O comportamento adequado e elegante é firmar bem as letras e articular as palavras de forma clara e distinta. [15] - “A oratória entre os árabes”, de Muhammad Al-Khidr Husain: 189.
Assim também era a fala do mais eloquente da criação, que as bênçãos de Allah e a paz estejam sobre ele.
Disse Aisha, Mãe dos Crentes (que Allah esteja satisfeito com ela): “Em verdade, o Mensageiro (Que a paz e bênçãos de Allah estejam sobre ele) não falava como vós”([16]). - Narrado por Al-Bukhari (3568) e Muslim (2493).
[22](O objetivo do sermão e os temas mais importantes que o orador deve abordar)
Deve o pregador conduzir as pessoas do mundo terreno, com suas preocupações e acontecimentos, ao mundo da Outra Vida e à preparação para ela; e não se deve transformar a mesquita em tribuna midiática, na qual o pregador aborda questões políticas e se envolve no que não beneficia os ouvintes, nem na sua religião nem na sua vida mundana.
O palestrante bem-sucedido dedica a maior parte de seus sermões àquilo que aumenta a fé e o apego a Allah, Altíssimo seja; pois, quando a fé das pessoas cresce e se fortalece o apego delas ao seu Senhor, isso é a maior causa de abandonarem os pecados e as futilidades.
E dentre os assuntos que o orador não deve negligenciar e que deve repetir sempre:
A Unicidade de Allah e Pilares do Islam.
O modo da oração e a importância do Khushu (humildade e concentração) nela.
Temas das ocasiões, como discorrer sobre o valor do mês de Ramadan, quando chega o seu tempo.
Advertência contra a Fitnah(tentações) e como lidar com ela.
Advertência contra as inovações (na religião).
O alerta contra as artimanhas do Satanás e as maneiras pelas quais ele procura desviar e enganar.
A conduta e a educação e o que a elas diz respeito.
Dentre os temas que aumentam a fé e o apego a Allah:
1- A glorificação de Allah mediante a menção de Seus atributos e de Seus favores nas almas das pessoas.
2- Exaltar o Alcorão, que é a Sua Palavra.
3- Mencionar as histórias dos Profetas – que a paz esteja com eles –, sobretudo a do último deles, o nosso Profeta Muhammad ﷺ, bem como as dos nobres Companheiros – que Allah esteja satisfeito com eles.
4- A menção do Paraíso, a sua descrição e os motivos para entrar nele, assim como o Inferno.
5- Atenção às adorações do coração: como confiança, retorno penitente, arrependimento, temor e concentração.
O sábio Ibn Al-Qayim - Que Allah seja misericordioso com ele - disse: “E quem refletir sobre os sermões do Profeta ﷺ e dos seus Companheiros, encontrará neles tudo o que basta para esclarecer a orientação e o monoteísmo, a menção dos atributos do Senhor – glorificado seja –, os fundamentos gerais da fé, o convite a Allah, a recordação dos Seus favores, que O tornam amado pelas Suas criaturas, e dos Seus dias (de punição), que incutem neles temor do Seu castigo. Encontrará também a ordem de mencioná-Lo e agradecê-Lo, o que faz com que O amem ainda mais. Assim, eles mencionavam da grandeza de Allah, dos Seus atributos e dos Seus nomes aquilo que O fazia amado pelas Suas criaturas, e ordenavam, a partir da obediência, da gratidão e da lembrança d’Ele, aquilo que tornava as criaturas amadas por Ele. Dessa forma, os ouvintes se retiravam tendo amado a Allah e sendo amados por Ele.”
Então, com o passar do tempo, o brilho da profecia foi-se ocultando, e as leis e ordens religiosas transformaram-se em meros ritos externos praticados sem consideração pelas suas realidades e objetivos. Assim, deram-lhes apenas as suas formas, enfeitando-as com o que puderam enfeitar, até que tornaram os ritos e formalidades em ‘sunnas’ das quais não se deveria abrir mão, ao mesmo tempo em que negligenciaram os verdadeiros objetivos, dos quais não se deveria descuidar. Encheram os sermões de rimas artificiais e ornamentos retóricos, de modo que o proveito dos corações diminuiu — ou até mesmo desapareceu — e o verdadeiro propósito dos sermões se perdeu.” [17] - "Zád Al-Ma'ád na orientação dos melhores servos": 1/ 409-410.
E disse - Que Allah tenha misericórdia dele - em seu discurso acerca do propósito do sermão: “O objetivo dela (da khutbah) é louvar e engrandecer a Allah, testemunhar-Lhe a unicidade e ao Seu Mensageiro ﷺ a missão profética, lembrar aos servos os dias de Allah, adverti-los contra o Seu castigo e a Sua punição, recomendar-lhes aquilo que os aproxima d’Ele e do Seu Paraíso, e proibi-los daquilo que os aproxima da Sua ira e do Seu Fogo. Esse é, portanto, o verdadeiro propósito do sermão e da reunião para ele.” [18] - "Fonte anterior": 1/ 386.
E convém ao pregador alertar as pessoas sobre os erros difundidos entre elas, seja na crença, nos atos de adoração, na moral, nos relacionamentos, na vida cotidiana ou na educação, e similares. Deve também adverti-las contra envolver-se em tentações e provações (fitan), e ensiná-las os assuntos da sua religião.
Allah melhor sabe, que a paz e bençãos de Allah estejam com o nosso Profeta Muhammad, sobre sua família e todos os seus companheiros.